Dados · Amazônia Legal

O que os números do PRODES 2025 realmente mostram — e o que ainda não dá para afirmar

A divulgação anual do PRODES costuma gerar manchetes binárias: desmatamento subiu ou desceu. Os números importam — mas a leitura apressada costuma misturar metodologias diferentes, ignorar defasagens de consolidação e tratar um ano isolado como tendência estrutural.

Em 28 de maio, o INPE apresentou a estimativa consolidada para o período agosto de 2024 a julho de 2025 na Amazônia Legal. O valor preliminar aponta 4.816 km² de desmatamento por corte raso — queda de 6,3% em relação ao ciclo anterior. Em menos de duas horas, o dado virou gráfico em telejornais, argumento em audiência no Congresso e prova de ambos os lados de uma polarização que raramente lê as notas metodológicas.

Este texto não contesta o trabalho do INPE. Propõe uma leitura mais lenta: o que o PRODES mede, o que o DETER antecipa, onde há incerteza e quais perguntas ainda não têm resposta nos números publicados.

PRODES e DETER medem coisas diferentes

O PRODES (Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite) estima a área total desmatada por corte raso em um ciclo anual fixo (agosto a julho). Usa imagens Landsat com resolução de 30 metros, passa por interpretação visual e validação — processo que leva meses e produz o dado mais confiável para séries históricas longas.

O DETER (Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real) alerta para mudanças na cobertura florestal com frequência maior, usando imagens de satélites com resolução mais grossa. Serve à fiscalização: indica onde olhar agora, não quanto foi desmatado com precisão no acumulado anual.

Nota metodológica: comparamos a série PRODES 2008–2025 com alertas DETER brutos, sem recalibrar resolução espacial. A correlação direcionada é alta (r ≈ 0,82), mas não é intercambiável — ver INPE, Nota Técnica PRODES/DETER, 2024.

Em 2024, alertas DETER acumulados subiram em três estados enquanto o PRODES consolidado posteriormente mostrou queda nacional. Isso não é contradição: parte dos alertas não se confirma como corte raso no PRODES; parte reflete desmatamento fora do período de corte do ciclo. Quem usa DETER de março para prever PRODES de maio aposta em correlação, não em identidade.

O que mudou no ciclo 2024–2025

Três movimentos merecem destaque além da variação percentual nacional:

  • Concentração municipal. Os dez municípios com maior área desmatada responderam por 48% do total na Amazônia Legal — proporção estável em relação ao ciclo anterior, mas com troca de posições: dois municípios do sul do Pará subiram no ranking enquanto áreas no sul do Amazonas recuaram.
  • Cerrado dentro da Amazônia Legal. O recorte do PRODES inclui porções de Cerrado nos estados amazônicos. Nesse subconjunto, o desmatamento cresceu 11%, puxado por conversão para pastagem no MATOPIBA amazônico — dinâmica distinta da floresta úmida.
  • Áreas protegidas. Unidades de conservação e terras indígenas continuam com taxas menores que a média regional, mas o numerador absoluto ainda é significativo: 14% do total desmatado ocorreu em UCs federais e estaduais, segundo recorte preliminar que obtivemos junto ao INPE.

O que ainda não dá para afirmar

Primeiro: se a queda de 6,3% inaugura tendência ou é oscilação dentro de patamar elevado. A média dos últimos cinco ciclos permanece acima de 4.500 km² — patamar que, antes de 2019, só se repetiu em anos de seca extrema e picos pontuais.

Segundo: o efeito de operações de fiscalização sobre o número final. O Ibama e os órgãos estaduais intensificaram ações em dois corredores no segundo semestre de 2024. O PRODES captura área já desmatada, não área recuperada nem desmatamento interrompido antes da conclusão. Uma operação eficaz em novembro pode não aparecer como redução no ciclo que fecha em julho.

Terceiro: a relação com metas internacionais. Compromissos de redução de emissões referem-se a anos civis e inventários de gases de efeito estufa — não ao ciclo PRODES. Traduzir 4.816 km² em megatoneladas de CO₂ exige modelos de biomassa e suposições sobre o uso do solo pós-desmatamento. Estimativas rápidas divulgadas na semana da apresentação variam em até 30% entre si.

«O número anual é indispensável para política pública, mas perigoso como manchete única. Quem decide orçamento precisa do recorte estadual, da sazonalidade e da distinção entre floresta primária e regeneração», diz Camila Rocha, pesquisadora do Centro de Sensoriamento Remoto da USP, em entrevista concedida a este site.

Leituras recomendadas além da manchete

Para quem acompanha o tema profissionalmente, sugerimos cruzar três fontes: a tabela municipal do PRODES (quando publicada em nível detalhado), os alertas mensais do DETER com recorte por bioma e os dados do MapBiomas sobre transição de uso da terra — que capturam regeneração e degradação que o PRODES de corte raso não mede.

Publicaremos em julho um painel atualizado com séries municipais e comparação a metas do Plano Clima, quando o INPE liberar a base georreferenciada completa. Até lá, desconfie de qualquer análise que transforme um único percentual em narrativa definitiva sobre a política ambiental brasileira.