O mercado voluntário de carbono no Brasil cresceu em volume e em visibilidade política. Cresceu menos em transparência: registros espalhados, padrões de certificação distintos e regulação federal ainda em construção tornam difícil responder perguntas básicas — quanto se negociou, a que preço e com qual garantia de integridade.
Compilamos registros públicos de projetos certificados, transações reportadas voluntariamente e propostas em consulta na CVM para o período 2024–2025. Este relatório não é balanço oficial — não existe um ainda —, mas um retrato do que é possível medir hoje com fontes abertas.
O que conseguimos quantificar
A partir de bases da Verra, Gold Standard, registros estaduais e comunicados de empresas listadas, identificamos 187 projetos com alguma conexão territorial brasileira e status ativo ou em validação em abril de 2026. Desses, 112 declararam componente florestal (REDD+, manejo florestal melhorado ou restauração).
Volume de créditos emitidos (não apenas registrados) no Brasil em 2024–2025: estimativa consolidada de 34,2 milhões de tCO₂e, com intervalo de incerteza de ±18% devido a defasagem entre emissão e publicação na certificadora. Negociações com preço divulgado somaram US$ 287 milhões — preço médio ponderado de US$ 8,40/t, mediana US$ 6,10/t. A média é puxada por poucos contratos corporativos de alto valor; a mediana reflete melhor o «preço de mercado» percebido por projetos menores.
Onde o mercado cresceu
- Amazônia Legal concentra 61% dos projetos florestais, mas apenas 38% do volume emitido em 2024 — projetos no Cerrado e em sistemas agroflorestais no Sul/Sudeste emitem mais rápido por ciclo de certificação mais curto.
- Compradores corporativos responderam por 72% do valor transacionado com preço conhecido; empresas de energia e agronegócio lideram, seguidas por companhias aéreas em compras spot.
- Estados com marco próprio de REDD+ jurisdicional (ex.: Acre, Mato Grosso) avançaram em consultas públicas, mas integração com mercado voluntário internacional permanece incipiente — poucos créditos jurisdicionais fechados.
Lacunas regulatórias
Três frentes permanecem abertas no horizonte 2026:
1. Dupla contagem. Sem integração automática entre inventário nacional de emissões, registros estaduais e certificadoras privadas, um mesmo hectare pode gerar narrativa de compensação em mais de uma camada. O projeto de registro nacional em discussão no MMA promete ID único por ativo, mas cronograma de implementação ainda não foi publicado.
2. Auditoria e adição. A maior parte dos créditos florestais depende de linha de base contrafactual — o que a floresta teria desmatado sem o projeto. Metodologias divergem. O TCU abriu acompanhamento de contratos públicos que usam créditos de carbono; relatório preliminar cita «fragilidade de evidência» em 4 de 11 compras analisadas.
3. Divulgação financeira. A CVM exige que emissores materializem riscos climáticos, mas formato de reporte de compensações ainda permite agregação opaca. Na amostra de 28 empresas listadas que declararam compra de créditos brasileiros, apenas 9 informaram certificadora e vintage.
«Mercado sem registro único é mercado onde o comprador confia na certificadora e na consultoria do vendedor. Isso funciona até o primeiro escândalo internacional — e escândalos já aconteceram», observa Fernanda Lírio, economista do clima, em revisão técnica deste relatório.
O que monitorar em 2026
Consulta pública sobre registro nacional de créditos; decisão do Congresso sobre marco do mercado regulado de carbono; e primeiros contratos jurisdicionais com preço público. Publicaremos atualização trimestral da planilha com novas emissões e transações reportadas.
Este relatório não recomenda compra ou venda de créditos. Mapeia o que os dados públicos permitem ver — e onde ainda é necessário olhar o contrato, não só o certificado.